terça-feira, 21 de março de 2017

O que é Teologia


Diversos são os conceitos e entendimentos sobre a “teologia”. É imprescindível o entendimento do termo para evitar equívocos sobre seu real significado. De acordo com o Dicionário Bíblico Wycliffe, é difícil encontrar uma boa e abrangente definição para a teologia, pois praticamente todas elas são, ou simples demais, ou tendem a dar mais importância a uma das fontes de uma teologia totalmente desenvolvida, excluindo outras.  A teologia sofreu preconceito em todas as eras da história e por diversas ocasiões recebeu o tratamento de mitologia pagã. Orígenes foi o primeiro a empregá-lo no contexto cristão como “a sublimidade e a majestade da teologia”. A partir de Eusébio de Cesaréia, a palavra popularizou-se no cristianismo.

A teologia não foi criada por si mesma, no sentido que a revelação e a fé tenham-na criado ou construído. As duas palavras gregas que formam o termo indicam o seu objetivo. “O termo teologia vem do grego theôs, "deus", e Iogos, "estudo", "discurso", "raciocínio". Assim, essa palavra indica o estudo das coisas relativas a Deus, à sua natureza, obras e relações com os homens, etc. Uma definição léxica diz: um corpo de doutrinas acerca de Deus, incluindo seus atributos e relações como homem; especialmente aquele corpo de doutrinas estabelecido por alguma igreja ou grupo religioso em particular". Essa é uma definição restrita. Mas esse vocábulo também é usado em um sentido mais geral: "O estudo da religião, que culmina em uma síntese ou filosofia da religião; além disso, uma pesquisa crítica da religião, especialmente da religião cristã".

Charles Ryrie destaca que existem pelo menos três elementos incluídos no conceito geral de teologia:

[1] Teologia é inteligível. Ela pode ser compreendida pela mente humana de maneira ordenada e racional. [2] Teologia requer explicação. Isso, por sua vez, envolve a exegese (análise dos textos no original) e a sistematização de ideias. [3] a fé cristã tem sua base na Bíblia, por isso a teologia cristã é um estudo baseado na Bíblia. Logo, teologia é a descoberta, a sistematização e a apresentação das verdades a respeito de Deus.

Para Geisler a teologia é o estudo daquilo que é referente a Deus, seja a sua natureza, as suas obras, bem como a sua relação com a sua criação (o homem). É um discurso racional a respeito de Deus.  Berkhof diz em sua sistemática que a Teologia é o conhecimento sistematizado de Deus de quem, por meio de quem, e para quem são todas as coisas.  Para Rahner, teologia é a explanação e explicação consciente e metodológica da revelação divina recebida e apreendida na fé (…) A tarefa da teologia é articular os elementos conceituais implícitos na fé cristã. 

            Na construção de um bom conceito para a teologia, Medrado faz uma observação: De que se trata a teologia? De Deus e tudo o que se refere a ele, isto é, o mundo universo: a criação, a Salvação e tudo o mais. E isso está já na palavra mesma de “teologia” estudo de Deus. Mas como Deus é o determinante de tudo, então, qualquer coisa pode ser objeto de consideração do teólogo. Deus, com efeito, pode ser definido como a realidade que determina todas as realidades.

            No contexto da religião cristã, Myatt afirma que “a teologia não é o estudo de Deus como algo abstrato, mas é o estudo do Deus pessoal revelado na Bíblia. Necessariamente isso inclui tudo o que é revelado sobre Ele e as suas obras e relações com as criaturas”.  Para Strong a “teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo”. De acordo com Gruden, “teologia é o estudo de Deus e de todas as suas obras”. Para Hodge “teologia não é somente ‘a ciência de Deus’ nem mesmo ‘a ciência de Deus e do homem’, ela também dá conta das relações entre Deus e o universo”. Um bom conceito para a teologia deve considerá-la como o estudo das relações do Criador (Deus) com a criatura (homens).

Conceituar a teologia simplesmente como o estudo de Deus seria muita presunção para o ser humano, uma vez que, Deus, transcende o entendimento humano. Em outras palavras, a mente humana é incapaz de estudar, ou conhecer a Deus na sua plenitude. Deus se revela ao homem, e este, é capaz de conhecê-lo. O conhecimento produz um relacionamento, que não necessariamente, permita um conhecimento pleno da “mente” de Deus. O relacionamento produzido por um relacionamento íntimo com Deus permite ao homem viver na plenitude daquilo que Deus projetou para ele. Deus é conhecido através das suas obras e das suas atividades. Por isso a teologia dá conta destas atividades na medida que elas acompanham o nosso conhecimento. 

Deus pode ser conhecido e é possível ao homem conhecer a Deus. Isso torna a teologia plenamente possível. De acordo com Strong existem ao menos três possibilidades para a teologia: [a] Deus é um ser real que se relaciona com o universo; [b] A mente humana é capaz de conhecer a Deus e perceber sua relação com o universo; e [c] Deus provê sua revelação (João 17.3: E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Efésios 1.17: Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação).

Hordern destaca que a teologia é um tratado ou desenvolvimento bem ordenado do pensamento que se possa obter a respeito de Deus. De acordo com este autor “a palavra ‘Deus’ não pode ser definida de forma exaustiva, mas é normalmente empregada para representar o que quer que se creia como sendo o fato ‘último’, a fonte da qual tudo o mais teria provindo, o valor supremo ou a origem de todos os valores da existência. Deus vem a ser o ente admitido como sendo digno de constituir-se no alvo e no propósito da vida. A luz de tais considerações, torna-se evidente que ninguém poderá passar sua existência sem a adoção de alguma forma de teologia”.

De acordo com o Dicionário Bíblico Wycliffe o termo “teologia” pode ser usado tanto para abranger um estudo dogmático de uma parte das Escrituras, como do todo. Dessa forma, é correto falar da teologia do Antigo Testamento ou da teologia do Novo Testamento. O termo “teologia”, segundo este dicionário, assume um sentido mais amplo, ou seja, tem a finalidade de cobrir todo o conteúdo do ensino das Escrituras que o homem pode vir a conhecer em relação à Deus, e também o relacionamento de Deus com tudo o que Ele criou.

A teologia cristã estruturou-se na história relacionando-se com a filosofia. Sobre esta relação e sobre a história da teologia cristã Domingos destaca que:

Um fato importante da História da Teologia cristã, é que ela exige, inevitavelmente, certa consideração sobre a filosofia e as influências filosóficas. A partir do século II, quando começa a nossa história, a filosofia torna-se a principal interlocutora da teologia, e mesmo com a oposição de alguns pais da Igreja, como por exemplo, o teólogo cristão norte-africano Tertuliano, quando perguntou retoricamente: "O que Atenas tem que ver com Jerusalém? E o que a Academia tem que ver com a igreja?", querendo protestar contra o uso crescente da filosofia grega (Atenas/academia) pelos pensadores cristãos que deveriam ter se fundamentado exclusivamente nas escrituras e em fontes cristãs (Jerusalém/igreja). O Pai da igreja e apologista, Justino Mártir referiu-se ao cristianismo como a "Filosofia verdadeira", ao passo que o mestre cristão do século III, Clemente de Alexandria, identificou o pensador grego Sócrates como um "cristão antes de Cristo", já tempos mais tarde, no século XIII, o pensador Blaise Pascal, asseverou que o "deus dos filósofos não é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó!" O relacionamento entre a reflexão cristã e a filosofia constitui uma parte muito importante da história da teologia cristã, e fornece algumas das tensões mais emocionantes dessa história. E para seu melhor estudo, a teologia cristã foi dividida em períodos, os quais são: [a] O período Patrístico, c. 100 - 451; [b] A idade Média e o Renascimento, c. 1050 - c.1500; [c] Os períodos das Reformas e da pós-Reforma, c. 1500 - c. 1750; [d] O período Moderno e o pós-Moderno, c. 1750 - até os dias atuais. Fica evidente a dificuldade de traçar linhas divisórias nítidas entre muitos desses períodos, por exemplo, as relações entre a idade média, o renascimento e a reforma são controvertidas, e alguns acadêmicos entendem que os dois últimos períodos são uma continuação do primeiro, embora outros os vejam como períodos totalmente distintos um do outro. O que podemos afirmar é que a história da Teologia Cristã começa no século II, cerca de cem anos depois da morte e ressurreição de Cristo, com o início da confusão entre os cristãos no Império Romano, tanto dentro quanto fora da Igreja. Os desafios internos principais eram semelhantes a cacofonia de vozes que muitos cristãos em nossos dias chamariam de "seitas", ao passo que os desafios externos eram semelhantes as vozes que muitos hoje chamariam "céticos". É dessas vozes desafiadoras que surgiu a necessidade e os primórdios da ortodoxia - uma declaração definitiva daquilo que é teologicamente correto.

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